Quebra do turismo em plena época alta reconfirma perda de competitividade e exige ação imediata do Governo Regional
A Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada – Associação Empresarial das Ilhas de São Miguel e de Santa Maria (CCIPD) reitera novamente a sua contínua preocupação com a queda do setor do turismo nos Açores, que se prolonga há dez meses e que é novamente comprovada pelos dados da atividade turística relativos a julho de 2026, com uma queda homóloga de 2,2% nas dormidas e de 4,0% no número de hóspedes, já em plena época alta. Os resultados de julho confirmam que já não estamos apenas perante um problema de aumento da sazonalidade do destino. Estamos perante uma perda global de fluxos turísticos que atravessa os diferentes períodos do ano e que se verifica agora também num dos meses de maior procura turística nos Açores.
No acumulado entre janeiro e julho de 2026, os Açores registaram cerca de 2,5 milhões de dormidas, menos 3,7%, e 757,6 mil hóspedes, menos 3,5% do que no mesmo período do ano anterior. Em sentido contrário, no conjunto do país, as dormidas aumentaram 2,1% em julho e 1,5% no acumulado do ano, evidenciando uma divergência cada vez mais clara entre a evolução do turismo nos Açores e a realidade nacional. Particularmente preocupante continua a ser a evolução do mercado nacional, que registou em julho apenas 109,1 mil dormidas, correspondendo a uma quebra de 7,8%, e acumula uma redução de 9,5% desde o início do ano. Também os mercados externos voltaram a diminuir 0,9% em julho, acumulando uma redução de 1,0%.
Para a CCIPD, a dimensão da quebra do mercado nacional confirma aquilo que alertou quando foi anunciada a saída da Ryanair – a redução da capacidade e da concorrência nas ligações com o Continente. Sem uma oferta alternativa capaz de compensar a operação perdida, a consequência foi o aumento dos preços das viagens e a redução da procura turística e, naturalmente, consequências negativas em toda a economia regional. Nas tarifas disponíveis, por exemplo para setembro de 2026, verificam-se diferenças muito significativas entre as ligações do Continente aos Açores e à Madeira, existindo diversas situações em que viajar para a Madeira apresenta preços próximos da metade dos praticados para Ponta Delgada, com diferenças que podem atingir cerca de 350€ a mais, por passageiro, para quem quer visitar os Açores.
Existem igualmente datas em que uma viagem entre Lisboa e Ponta Delgada pode atingir valores extremamente elevados, tornando os Açores inacessíveis ao mercado nacional. A situação é particularmente evidente em São Miguel, principal destino turístico regional, onde as dormidas da hotelaria e alojamento local diminuíram 3,0% em julho. São Miguel representou 65,5% das dormidas destes dois segmentos, pelo que a evolução negativa da ilha tem um impacto determinante no desempenho turístico dos Açores.
A CCIPD considera igualmente necessário esclarecer a leitura que tem sido feita sobre o crescimento dos proveitos da hotelaria tradicional. O aumento dos proveitos publicado da hotelaria não pode ser apresentado pelo Governo Regional como indicador representativo da situação global do alojamento turístico dos Açores. Em julho, o Alojamento Local foi, inclusivamente, o segmento com maior peso nas dormidas nos Açores, representando 48,7% do total, acima dos 46,2% da hotelaria. Enquanto a hotelaria registou um crescimento de 1,1% nas dormidas, o Alojamento Local caiu 4,5% em julho e 7,6% no acumulado janeiro-julho. O turismo no espaço rural apresentou igualmente uma quebra de 7,1% em julho e 11,7% no acumulado. Não é, portanto, correto utilizar os proveitos de apenas uma parte do setor para concluir que a atividade turística regional apresenta uma evolução económica favorável, quando o segmento que concentra a maior parcela das dormidas está em queda significativa e os valores dos proveitos são ocultados. Acresce que falar de crescimento nominal dos proveitos sem considerar a evolução dos custos também não permite avaliar a rendibilidade das empresas.
Os operadores económicos têm enfrentado aumentos significativos nos custos com pessoal, energia, matérias-primas, serviços, financiamento e outros fatores de produção. Perante dez meses consecutivos de quebra, incluindo agora os meses de plena época alta, a CCIPD considera particularmente preocupante a ausência de uma resposta do Governo Regional, proporcional à dimensão real do problema, e de assunção de responsabilidades. Não é possível continuar a assistir à deterioração dos indicadores e esperar que o mercado, por si só, inverta esta tendência. O tempo para diagnósticos terminou. É necessário agir.
A CCIPD reclama uma resposta imediata que permita recuperar capacidade aérea e concorrência nas ligações com o Continente, acelerar a captação de novas rotas e operadores, reforçar substancialmente a promoção externa do destino e concretizar os instrumentos de apoio às acessibilidades que têm vindo a ser anunciados. O Governo Regional tem de reconhecer a dimensão do problema e passar urgentemente das intenções e dos anúncios à execução de medidas concretas, antes que a perda de conectividade, a procura e a competitividade produzam danos mais profundos e duradouros no turismo e na economia dos Açores.
Ponta Delgada, 31 de agosto de 2026
A Direção