Açores perdem 123 mil passageiros enquanto a Madeira cresce com as low cost: CCIPD exige ao Governo Regional que deixe de gerir o declínio
A Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada – Associação Empresarial de São Miguel e de Santa Maria (CCIPD) considera que os dados do transporte aéreo e da atividade turística de 2026 são o retrato de um falhanço político: enquanto a Madeira cresce, apostada na concorrência e nas companhias de baixo custo, os Açores recuam, sem estratégia, sem rotas e sem uma promoção à altura do destino.
Os números não deixam margem para dúvidas. De acordo com o SREA, entre janeiro e agosto de 2026 desembarcaram nos aeroportos dos Açores 1.566.594 passageiros, menos 123.095 do que no mesmo período de 2025 (-7,29%). Nenhum dos primeiros oito meses do ano superou o registo de 2025.
Entre abril e agosto, período que coincide com a saída da Ryanair, a quebra foi de 103.766 passageiros (-7,92%). Na procura turística, entre janeiro e julho, os Açores registaram 768.672 hóspedes, menos 30.056 (-3,8%).
No mesmo período, a Madeira e o Porto Santo somaram 1.966.393 passageiros desembarcados, mais 59.149 (+3,1%), e 1.655.029 hóspedes, um crescimento de 5,8%.
Duas regiões autónomas, duas ultraperiferias, dois caminhos opostos: os Açores perderam mais de 123 mil passageiros e 30 mil hóspedes; a Madeira ganhou quase 60 mil passageiros e continua a crescer.
O sucesso da Madeira não é obra do acaso. Desde a liberalização das suas ligações aéreas, a Região apostou de forma consistente na entrada e fixação de companhias de baixo custo, que se tornaram um dos pilares do seu desenvolvimento turístico e económico. Só a EasyJet disponibiliza em 2026 cerca de 1,5 milhões de lugares de e para a Madeira, mais 5% do que no ano anterior, e continua a abrir novas rotas.
As low cost trouxeram à Madeira mais passageiros, mais mercados, mais operação fora da época alta e tarifas mais baixas, não só para quem visita, mas também para os residentes. Trouxeram concorrência, e a concorrência obrigou todo o mercado a melhorar. Essa procura espalha-se pelo alojamento, restauração, comércio, animação turística e transportes, sustentando emprego e investimento durante todo o ano.
Os Açores fizeram o percurso inverso. Perderam a Ryanair, perderam concorrência, perderam capacidade e continuam praticamente inacessíveis durante o Inverno IATA. O resultado está à vista nas estatísticas e na tesouraria das empresas.
A CCIPD alertou, atempadamente e por diversas vezes, para as consequências da redução da oferta aérea. O Governo Regional não ouviu, não antecipou e não respondeu. Assistiu à saída do principal operador de baixo custo sem apresentar uma alternativa credível e limitou-se, desde então, a gerir a quebra, como se a perda de mais de cem mil passageiros fosse uma inevitabilidade e não o resultado de escolhas políticas.
O Fundo de Desenvolvimento de Rotas Aéreas chega tarde e, até ao momento, não se traduziu numa única operação nova capaz de compensar o que se perdeu. Os empresários açorianos precisam de aviões, de lugares e de passageiros.
A promoção do destino continua muito aquém do que os Açores exigem. A Visit Azores dispõe de um orçamento anual de cerca de 8 milhões de euros, do qual apenas cerca de metade tem sido efetivamente executada. Num ano em que o destino perdeu acessibilidades, a resposta tem sido feita de campanhas pontuais, tardias e sem escala, sem presença permanente nos mercados emissores estratégicos e sem uma articulação eficaz com as companhias aéreas.
A Visit Azores tem de deixar de ser um instrumento de gestão corrente e passar a ser uma verdadeira agência de captação de procura, com meios, metas e prestação de contas.
A CCIPD apresenta um conjunto de medidas concretas para inverter esta tendência:
1. Pôr o Fundo de Rotas a funcionar. Lançar, até ao final de 2026, procedimentos para novas rotas com início no verão IATA de 2027, com contratos plurianuais que deem às companhias previsibilidade para investir nos Açores.
2. Trazer de volta as low cost. Assumir como prioridade política a atração de operadores de baixo custo, a partir de Lisboa, Porto e dos principais mercados europeus, com pacotes de incentivos competitivos, co-marketing e apoio ao arranque de rotas, à semelhança do que outros destinos fazem com sucesso.
3. Um plano específico para o Inverno IATA. Incentivos dirigidos à operação na época baixa, articulados com campanhas promocionais, para acabar com o isolamento do destino.
4. Reformar e reforçar a Visit Azores. Um orçamento mínimo de 15 milhões de euros anuais entre 2027 e 2029, com pelo menos 7 milhões dedicados a marketing, execução integral das verbas, planeamento antecipado das campanhas e representação permanente nos mercados estratégicos.
5. Metas públicas e prestação de contas. Objetivos anuais de passageiros, lugares, rotas e hóspedes, com relatórios de execução públicos e avaliação independente dos resultados do investimento em promoção e rotas.
Os Açores não são um destino menor do que a Madeira. Têm é sido governados com menos ambição. A CCIPD não aceita que a Região continue a perder passageiros, empresas e empregos por falta de estratégia. É tempo de o Governo Regional deixar de gerir o declínio e começar a governar o crescimento.
Ponta Delgada, 29 de setembro de 2026
A Direção
